Jorge Martins Cardoso

 

Um eterno aprendiz



Textos

A LIBERDADE... A VONTADE... "IGREJAS EVANGÉLICAS BRASILEIRAS estão envolvidas com o NARCOTRÁFICO?" - 43ª parte (continuação).






A LIBERDADE... A VONTADE... “IGREJAS EVANGÉLICAS BRASILEIRAS estão envolvidas com o NARCOTRÁFICO?” - 43ª parte (continuação).




43ª parte (continuação).




GRICORE AVRAM VALERIU.



“A VERDADEIRA HISTÓRIA da IGREJA UNIVERSAL”.




“ANO da GRAÇA”.




     Por causa de um vazamento de água no apartamento de um vizinho do andar de baixo, GRIGORE perdeu na Justiça uma causa que ele considerava ganha. Ele considerou o seu advogado como sendo muito negligente.
     Passou a não confiar em advogados. Quis ser advogado. Por isto, começou a estudar à noite na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas. Finalmente, tornou-se um advogado brilhante e continuou como empresário bem sucedido.
     GRIGORE descreve sua personalidade naqueles anos de glória. “Passava por cima de cadáveres para conseguir as coisas”. GRIGORE vivia a fase de se sentir “dono do mundo”. Não admitia ser chamado pelo nome, “apenas como doutor”. Seu status e seus diplomas lhe deram conhecimento e arrogância. Não fumava nem bebia, mas hoje admite que seu vício fosse “DESPREZAR”.  
    




“DO DESERTO AO HARÉM”.




     Esses traços de personalidade não ficaram restritos ao campo profissional. O deserto que havia sido a vida sentimental e o contato com as mulheres durante a adolescência e puberdade podia agora se transformar num oásis.  
     As condições estavam dadas: - Se antes enfrentou a repressão da ROMÊNIA COMUNISTA, o deslocamento de uma nova vida em outro país e a proximidade com a mãe doente, agora ele sentia-se integrado num Rio de Janeiro de mar, sol, vida saudável, e, principalmente, apelos femininos.
       Tudo era favorável a que pudesse descontar o atraso dos anos de falta de companhia.  
     A vida clandestina de homem casado com affairs regulares passou a ser a sua vida. Em todas seguia um script semelhante: - Os casos nunca duravam muito tempo, avisava desde logo que não se separaria de NADEGE e sentia uma dor na consciência brutal.
     “Sentia-me um canalha a cada carinho da minha esposa”, diz GRIGORE.
     Depois de dois anos e alguns meses, cansado da vida dupla, tripla ou quádrupla, GRIGORE tomou a decisão de contar tudo.
     NADEGE não aceitou o fato, nem no dia do desabafo, quando em meio a uma crise nervosa começou a quebrar objetos da casa, nem durante muitos anos.
     Anos em que a harmonia do casal perderia seu equilíbrio instável e se transformaria em brigas, desilusão e desamor.  
    




“BRIGAS e CALMANTES”.




     Quando a realidade do casamento desabou na cabeça de NADEGE, ela estava esperando o segundo filho, EMILIANO. Seguir em frente, só com a ajuda de REMÉDIOS. Agora era ela quem vivia nas salas de espera dos médicos.
     Os momentos de briga e conflitos superavam de longe os de calmaria. Em qualquer lugar que fossem NADEGE achava que GRIGORE paquerava outras mulheres. Tinha explosões de ciúmes, em público e dentro de casa.
     A separação passou perto. NADEGE fez as malas e saiu de casa com os filhos. Mas só conseguiu chegar até a calçada. Atrás dela, o marido implorando para ela ficar.
     NADEGE telefonava diariamente para sua irmã em JUIZ de FORA. Pedia conselhos, mas o que mais queria entender era como podia continuar amando e odiar tanto.
     De médico em médico, com diagnóstico de depressão, acabou parando no mesmo doutor DONATO KULICK que havia tirado GRIGORE do abismo com sua infalível receita de colocá-lo para trabalhar.  
     No consultório, a conversa não foi sobre NADEGE arrumar ocupação. Acendendo um cigarro no outro, doutor KULICK defendeu que não havia a necessidade de nenhum tratamento especial.
     Apenas que NADEGE entendesse que os homens eram mesmo daquele jeito. Se compreendesse isso, tudo ficaria mais fácil.
     Da sala de espera GRIGORE viu a esposa sair em uma explosão de ira. Em meio a xingamentos, dizia ao médico que quem precisava de tratamento era ele. E diagnosticou para o marido: - Esse homem é doente.
     GRIGORE acabou fechando a Corretora, e no mesmo lugar abriu uma Loja de Tecidos. Além do mais, chamou NADEGE para trabalhar com ele. O serviço não era muito.
     A função principal mesmo, ambos sabiam, é que NADEGE dessa maneira ficava próxima ao marido o dia inteiro, como uma tentativa de aplacar sua desconfiança crônica.
     Inicialmente, tentaram a Saída Espiritual através de um PAI-DE-SANTO que morava em SÃO PAULO. Fizeram várias viagens, porém, não obtiveram resultados satisfatórios.  
     Foi em uma dessas idas-e-vindas a SÃO PAULO que resolveram parar em APARECIDA do NORTE. NADEGE era devota da Santa, e a imagem da Famosa Catedral vista da Rodovia Dutra parecia uma saída para as Dores da Alma.
     O ATEU convicto GRIGORE concordou em levarem para casa um busto de gêsso com a imagem de JESUS CRISTO. Continuava sem acreditar, mas de madrugada, sem conseguir dormir, atravessava o corredor que separava os quartos da sala e parava em frente à imagem. Conversava com JESUS e dizia com franqueza que não acreditava nele.
     Não foram poucas as vezes em que chorou diante da Escultura, pensando nos filhos pequenos que sofriam com a desarmonia dos pais e sentindo o profundo sofrimento que parecia não ter fim.      
     Foi em uma dessas noites que chegou aos seus ouvidos as mensagens da RÁDIO COPACABANA. Na primeira noite, GRIGORE dormiu, e acordou no dia seguinte restaurado. Na noite seguinte, o fenômeno se repetia. GRIGORE experimentava vários CALMANTES, mas nenhum parecia melhor que a voz hipnótica do PASTOR.
     Na terceira noite, convidou NADEGE para ouvir a RÁDIO COPACABANA com ele, e ambos não conseguiram passar dos primeiros vinte minutos de PREGAÇÃO. Dormiam como crianças, cada vez mais intrigados pela nova descoberta.  
     Em uma das noites, esforçando-se para prestar atenção, GRIGORE e NADEGE ouviram do PASTOR que escutar a palavra do SENHOR pela RÁDIO era bom, mas na era suficiente.
     A convocação era para que os RÁDIO-FIÉIS comparecessem aos CULTOS, e conhecessem a verdade de perto. Se a voz de DEUS havia transformado a vida do OUVINTE, argumentava o PASTOR, imagine o que aconteceria encontrá-lo por inteiro.
    




“OVELHAS CHEIAS de LÔ.




     A IGREJA UNIVERSAL do RECREIO dos BANDEIRANTES, zona oeste do Rio de Janeiro, era um barracão de alvenaria como tantos outros da favela que o circundava.  
     Era 1988, e os únicos TEMPLOS da UNIVERSAL que tinham o luxo de poltronas estofadas eram os de BOTAFOGO, na Rua São Clemente, e a sede da ABOLIÇÃO, na AVENIDA SUBURBANA.  
     Para GRIGORE, a FÉ, expulsa da sua formação na ROMÊNIA COMUNISTA, sentimento antes plenamente rejeitado, começava agora a plantar suas sementes. Depois da noite em que os sons da RÁDIO COPACABANA o fizeram dormir e esquecer a idéia de suicídio, a guerra com a esposa ganhou uma trégua. Ambos passaram a ouvir a voz do PASTOR todas as noites.
    
     Na semana seguinte, o próprio PASTOR GERALDO devotou especial atenção aos novos fiéis. Hoje, NADEGE entende o assédio com clareza: - “Assim que eles nos viram, pensaram: - Chegaram ovelhas cheias de lã”.
     A estrutura da IGREJA UNIVERSAL era incipiente, mas já com objetivos definidos. Subia na hierarquia o PASTOR que apresentasse boas ARRECADAÇÕES. Quanto mais os FIÉIS eram generosos mais o TEMPLO ganhava pontos entre a CÚPULA. GRIGORE e NADEGE eram naquele ambiente pobre um presente dos céus.    
     As primeiras doações foram discretas quantias em dinheiro na sacolinha da IGREJA. Depois, objetos de valor eram depositados sobre uma BÍBLIA aberta. Um dia, emocionado após uma PREGAÇÃO a respeito da generosidade de DEUS, GRIGORE deixou sobre a BÍBLIA um relógio do qual gostava muito.  E este não tinha só valor afetivo, mas também material.
     O PASTOR tornou-se cada vez mais próximo de suas novas ovelhas. Dessa amizade ganhou não só caronas para sua residência distante em CAMPO GRANDE, como ofertas para a IGREJA como uma geladeira, um rádio, um aparelho de tevê.
     GRIGORE resolveu enfim abrir a BÍBLIA e estudar os EVANGELHOS e a VIDA de JESUS. Como em tudo o que fazia, mergulhava fundo, e o sentimento de transcendência ao espírito o invadia. A vida do casal melhorava. As discussões eram mais esparsas e mais leves. GRIGORE foi ficando mais tranquilo.  
     O que custava comprar leite e comida e deixar na casa do PASTOR GERALDO, em CAMPO GRANDE? O que custavam as doações, eles que tinham dinheiro, mas que não conseguiram comprar a paz? Além do mais, sentiam-se importantes. Para o PASTOR GERALDO, GRIGORE e NADEGE tinham uma missão divina. O casal passou a admirar cada vez mais aquele homem pela sua FÉ. Para o PASTOR GERALDO, tudo era possível conseguir para a obra de DEUS. Se um dia não conseguisse alguma coisa, sentenciava: - “Eu fecho a IGREJA e rasgo a BÍBLIA”. E, de fato, conseguia. Principalmente com o valioso apoio de suas novas ovelhas.    
    




“O DEDO do DEMÔNIO”.




     Tão logo conquistou a confiança de suas novas ovelhas, o PASTOR GERALDO deu início a sua primeira missão evangelizadora: - Destruir a casa do casal. GRIGORE e NADEGE sentiram-se honrados na primeira visita. Afinal, era um homem de DEUS em sua casa. Receberam-no com sorrisos que contrastavam com a seriedade com que o PASTOR olhava para o ambiente.  
     O PASTOR GERALDO começou a quebrar quase tudo que fosse ligado ao diabo, à depravação e à decadência. Segundo a visão do PASTOR. Passou a atirar pratos, copos, louças, enfeites contra a parede. Rasgou quadros, derrubou estátuas. GRIGORE e NADEGE apenas assistiam à ira santa num misto de espanto e admiração.  
     Até uma imagem sagrada de CRISTO atirou-a no chão e chutou com ódio os estilhaços. Uma versão caseira do que anos depois o BISPO VON HELDER faria na tevê, chutando a Imagem de uma Santa e indignando CATÓLICOS do país inteiro.
     O PASTOR garantia que seu ato ia libertar o casal das amarras que o prendia ao passado.
    Além do quebra-quebra, eram necessários outros métodos para apagar os dramas anteriores. As fotos de família, do casamento, o registro da história de amor de GRIGORE e NADEGE e, principalmente, as fotos em que a mãe de GRIGORE aparecia, terminaram em fogueira.  
     No centro da ampla mesa de jantar o PASTOR GERALDO encontrou o objeto mais pernicioso de todos. Uma carruagem de porcelana, pesada, com quase um metro de comprimento. Os passageiros eram figuras de Mulheres Seminuas e, para piorar, ROMANOS portando espadas. Sim, ROMANOS que simbolizavam a IGREJA APOSTÓLICA de ROMA. Os pecadores marcavam encontro naquela carruagem.  
     O PASTOR GERALDO decidiu levar a carruagem satânica para quebrá-la no culto do dia seguinte em seu Templo. No culto, com a carruagem nas mãos e imbuído de ódio e coragem, praguejou contras as Mulheres Lascivas e os ROMANOS. Pregou aos berros que aquele enfeite havia sido construído com o Dedo do Demônio e lançou-o com força ao chão.
     Durante o movimento, o Dedo do PASTOR acabou se enroscando numa das muitas saliências da carruagem, e o Dedo foi decepado, mas ficou preso ainda à mão pelas juntas.
     Em estado de choque, o PASTOR GERALDO agora chorava em desespero pelo Dedo decepado. Levado a um Hospital, o PASTOR tremia, e alternava lamentações com choros incontidos que perturbavam o ambiente. Sorte que os donos da carruagem de porcelana tiveram o cuidado de embrulhar o Dedo, na esperança de que algo pudesse ser feito.
     De fato o PASTOR teve seu Dedo implantado. E passou a exibir com orgulho o trabalho feito por DEUS. Nas mãos, o Dedo quase tão perfeito quanto era antes. No pulso, o relógio de estimação que GRIGORE havia doado para a Igreja.    




“MIOPIA COLETIVA”.




      O ingresso na Igreja Universal do Reino de Deus fez de GRIGORE outro homem. O que não significa que tenha mudado para melhor. A freqüência na IGREJA passou a ser intensa, na maior parte das vezes nos três CULTOS diários, fora o convívio com o PASTOR. GRIGORE sentia a FÉ modificar a sua vida.
     NADEGE, por outro lado, não chegou nem próximo desse grau de envolvimento com a FÉ, e com a IGREJA. NADEGE muito cedo passou a sentir um cheiro estranho no ar, nos pedidos insistentes por OFERTAS, no comportamento dos PASTORES e suas ESPOSAS que na maioria das vezes não batia com o que PREGAVAM.
     Ela tinha deixado suas jóias, anéis, brincos e pulseiras em concordância com as palavras de um PASTOR chamado RANDAL, que como os outros asseguravam ser a vaidade uma arma do capeta. As mulheres só precisavam de banho, nada mais.  
     Para NADEGE o abismo entre fala e gesto dos Líderes da UNIVERSAL era gritante. NADEGE se recorda de uma ação filantrópica na qual se envolveu de maneira especial.
     Os necessitados eram pessoas de sua terra, Alagoanos que se encontravam em situação precária por causa de uma enchente que devassou Maceió. FIÉIS se mobilizaram e doaram agasalhos, comida, todo tipo de auxílio.
     Por seu lado a UNIVERSAL promovia o assistencialismo sem entrar com nada. Mesmo as carretas para transportar os mantimentos eram patrocinadas pelos membros. Os recursos que a IGREJA recebia em doações e ofertas jamais eram usados para ajudar o próximo. Ao contrário, algumas vezes – e NADEGE presenciou o fato – quando a UNIVERSAL recebia grandes quantidades de alimentos para dar a quem passava fome, boa parte, parava no meio do caminho. Dentro do TEMPLO, OBREIROS e PASTORES separavam o alimento de melhor qualidade para as refeições do TEMPLO. O resto ficava para a ajuda humanitária.
     GRIGORE também presenciava boa parte desse comportamento sinistro. Enquanto condenava o uso de REMÉDIOS, pois significava que o FIEL não confiava no Poder Curativo de DEUS, os PASTORES viviam nos melhores MÉDICOS e se entupindo de ASPIRINA.
     A diferença é que GRIGORE via tudo aquilo, mas se recusava a enxergar. NADEGE concordava que o marido chegara à UNIVERSAL FRAGILIZADO. Mas agora estava FANATIZADO. A dedicação e o envolvimento com a IGREJA, que haviam sido o REMÉDIO para as brigas conjugais, eram agora a CAUSA delas.
     1ª observação do escriba: - O Estádio do MARACANÃ e a suposta cura da MIOPIA de GRIGORE são citados na página 111.    
     2ª observação do escriba: - O PASTOR RENATO SUHUET é mencionado na página 112.
     3ª observação do escriba: - O PASTOR OSWALDO é citado na página 114.
     ... Era comum nas brigas com GRIGORE, NADEGE quebrar pratos, copos e o que mais visse pela frente em acessos de ódio. Diferente do quebra-quebra promovido pelo PASTOR GERALDO anos antes, agora o objetivo não era expulsar satanás, mas expulsar a própria IGREJA da vida do casal.
     NADEGE estava convencida de que estavam sendo enganados, e revoltava-se ao ver que o marido não percebia. Pior: - Dava razão para o PASTOR e não para ela.
    




“O PODER da FÉ”.




     (...) Não foi à toa que dois PASTORES da modesta IGREJA do RECREIO dos BANDEIRANTES – PASTOR GERALDO e PASTOR EDUARDO – foram promovidos para IGREJAS maiores depois que encontraram um bilhete da loteria chamado GRIGORE AVRAM VALERIU.
     (...) Uma mostra da sua própria importância GRIGORE sentiu tempos depois, quando prestava serviço como ADVOGADO para a UNIVERSAL. Ele cuidou da documentação de um galpão que o dono queria vender para doar o DINHEIRO à IGREJA.
     No táxi, a caminho do local, iam no banco de trás o ADVOGADO GRIGORE e o ENGENHEIRO PASTOR MARCELO CRIVELLA, mais tarde BISPO e SENADOR, tendo sido candidato ao Governo do Rio de Janeiro.
     O PASTOR CRIVELLA perguntou de que Igreja GRIGORE havia vindo. Humilde, GRIGORE respondeu que era uma IGREJA pequena, no RECREIO. CRIVELLA tirou de uma pasta uma planilha e demonstrou que de pequeno o TEMPLO do RECREIO não tinha nada.
     Nos anos de 1989 e 1990 havia sido uma das IGREJAS que mais arrecadou, superando muitos TEMPLOS grandes e tradicionais. GRIGORE preferiu não tecer comentários, mas sabia que os bons números da planilha tinham uma razão: - Ele próprio.  
     (...) Tanto é que o próprio casal GRIGORE e NADEGE acabou por ser “promovido”. O então PASTOR RENATO SUHUET, mais tarde BISPO, levou-os para a IGREJA da BARRA da TIJUCA, maior e com mais FIÉIS.
     (...) Um desses movimentos especialmente mobilizadores foi a campanha para a compra da REDE RECORD de TELEVISÃO, em 1991.
     A estratégia foi um engajamento coletivo, o maior até então, para que todos juntos – FIÉIS, PASTORES, BISPOS e OBREIROS – pudessem comprar uma Emissora de DEUS, para se contrapor ao pecado e à degradação que o povo brasileiro era obrigado a assistir na REDE GLOBO.
     Contra a emissora do capeta, uma emissora do Senhor, onde o povo de DEUS pudesse ter o que assistir.
     Os PASTORES davam o exemplo e anunciavam que os carros da IGREJA estavam sendo vendidos. Os Líderes da UNIVERSAL iriam andar a pé, tudo em nome da Emissora CRISTÃ.
     GRIGORE foi no embalo e não só vendeu um Automóvel que acabara de comprar como foi nessa época que se desfez da Loja de Tecidos. A CASA MARINO ia mal das pernas. O dono passava mais tempo na IGREJA do que na EMPRESA.  
     FIÉS como GRIGORE passaram a andar a PÉ. Os BISPOS e PASTORES logo depois da campanha passaram a andar em CARROS MELHORES. Para uns a compra da RECORD significou desapego. Para outros, a oportunidade de trocar de CARRO.    
     Observação do escriba: - O PASTOR RANDAU FILHO comandou uma “Vigília de Orações” para matar GRIGORE. Posteriormente sofreu um acidente no Japão, ficou tetraplégico, e, inconformado, terminou se suicidando. (páginas 124 e 125).
    




“UM CULTO no MEIO do CAMINHO”.




     GRIGORE foi vendendo seus imóveis, um a um, crente de que estava no caminho certo para dar um jeito em sua vida.
     (...) O PASTOR RENATO SUHUET se comprometia a ajudar. Ele ia com GRIGORE ao imóvel e lá ficava orando para que aparecesse um comprador.
     Outros bens valiosos que pararam na sacolinha foram as jóias de família. Primeiro as que GRIGORE havia comprado para a esposa. Eram brincos, pulseiras e anéis, na maior parte de ouro e de prata. NADEGE gostava delas – afinal, era um mimo que contrastava com sua história pessoal de poucas posses.  
     (...) Assim, o casal levou o mostruário ao TEMPLO e foi muito bem recebido. Haviam dado uma prova de desapego. O mesmo não se pode dizer da esposa do PASTOR EDUARDO CARDOSO, que dali pra frente era sempre vista portando na orelha, no pulso ou no pescoço alguma peça do mostruário de NADEGE.  
     (...) As jóias do banco, contudo, não saciaram o apetite do PASTOR EDUARDO CARDOSO. O PASTOR EDUARDO CARDOSO sabia – pois compartilhava dos assuntos pessoais dos seus FIÉIS, que dificilmente guardam segredos para seu PASTOR – que GRIGORE guardava as jóias da mãe.
     As jóias, que quase haviam feito com que NINA ficasse presa na ROMÊNIA, enquanto o resto da família aguardava o avião decolar para liberdade. Essas não eram jóias esquecidas num cofre de banco, mas bem guardadas no fundo da memória afetiva.  
     (...) Eram anéis pesados de ouro 22 quilates, broches pesados com flores de ouro desenhadas que haviam sido a única coisa que restou para os HERCOVICIS na transição do NAZISMO para o COMUNISMO.
     “As jóias não foram para o REGIME COMUNISTA, mas foram para o REGIME do EDIR MACEDO”, lamenta-se GRIGORE.    
     E assim, de venda em venda, de doação em doação, o patrimônio minguou.
    




“CAMINHO de JÓ”.




     A provação de fato merecia a comparação com Jó. Menos de dois anos depois de ter se tornado definitivamente FIEL da Igreja Universal do Reino de Deus, GRIGORE era um homem pobre.
     Na sacolinha da IGREJA UNIVERSAL GRIGORE deixou cinco apartamentos, três lojas, uma corretora de imóveis, uma empresa de tecidos, uma Belina, um Del Rey, um Escort e um Maverick, as jóias da família, as jóias com que presenteara a esposa, 14,7 mil ações da EMPRESA MARANHENSE de MINERAÇÃO, oito mil ações da LUSTRENE e uma boa quantia em dinheiro vivo.
     “Passamos pelo deserto”, afirma GRIGORE. Um deserto onde, paradoxalmente, certa vez durante dois dias só havia água para beber. Com a geladeira completamente vazia, GRIGORE, NADEGE e os dois filhos passaram épocas de fome. E se houvesse comida, não havia dinheiro para comprar o botijão de gás.
     (...) “A gente chegou a orar para DEUS matar a gente e os nossos filhos porque não víamos saída”, diz NADEGE sobre os piores momentos de desespero.
     Observação do escriba: Um PASTOR OSWALDO é citado na página 135.
    




“ADVOGADO do DIABO”.




     (...) GRIGORE iria falar com o Líder da Universal no Rio de Janeiro, PASTOR HONORILTON GONÇALVES. O PASTOR SUHUET, consultado, garantiu que iria arrumar uma audiência. Quando GRIGORE e NADEGE chegaram na ABOLIÇÃO levaram um susto.
     Uma longa fila começava já do lado de fora do TEMPLO, avançava para a parte de dentro, atravessava todas as fileiras de cadeiras, subi por uma escada até o andar superior e precipitava-se ainda por longos corredores até encontrar seu final justamente na porta do PASTOR HONORILTON GONÇALVES.
     Eram obreiros, desempregados, FIÉIS, mendigos, donas-de-casa, todos enfrentando aquele calvário para uma palavra com o Líder da Universal.
     O PASTOR SUHUET disse que o PASTOR HONORILTON GONÇALVES estava sabendo do caso e eles seriam recebidos sem fila. Foram colocados na própria sala do PASTOR.  
     Aproximadamente duas horas depois o PASTOR HONORILTON entrou apressado. Enquanto SUHUET explicava o caso, a atenção de HONORILTON era desviada pela presença da esposa, dos filhos e do cachorro que haviam chegado.
     (...) GRIGORE e NADEGE só tiveram atenção exclusiva alguns instantes depois, já na hora de HONORILTON dar o seu parecer: - Não podia contratar GRIGORE como advogado da UNIVERSAL. O motivo não era currículo insuficiente... Segundo HONORILTON, GRIGORE não “estava liberto”. O que significava que havia um espírito maligno grudado nele que era a causa dos seus fracassos. O máximo que HONORILTON podia fazer, garantiu, era ORAR para afastar o ENCOSTO.
     GRIGORE descobriu onde HONORILTON estacionava o carro e fazia vigília encostado nele. Quando tinha um tempo maior para expressar seu drama – o que significava alguns segundos a mais – não se importava em pedir, se humilhar e até ajoelhar. Insistia por uma experiência de dois meses, na qual poderia mostrar sua utilidade.
     Um dia finalmente HONORILTON cedeu. Possivelmente mais para se livrar do estorvo do que por caridade, o PASTOR mandou que GRIGORE procurasse a advogada que tomava conta dos negócios da IGREJA no Estado.
     O Departamento Jurídico da UNIVERSAL funcionava no andar acima de onde eram emitidas as ondas da RÁDIO COPACABANA. Isso emocionou GRIGORE na sua primeira visita – afinal, dali havia saído a voz que determinou o rumo de sua vida. O ponto de partida que fez com que ele chegasse aonde chegara naquele momento: - O ponto mais baixo do trajeto. Era a esperança.
     GRIGORE começou de baixo como Assessor Jurídico da IGREJA, mas já era uma melhora em sua delicada situação. O salário era modesto.  
     Não havia caso que passasse por ele que não fosse resolvido. Era um aproveitamento de cem por cento, o que acabou sendo percebido pelos superiores hierárquicos. Em quatro meses GRIGORE tornou-se o advogado chefe da UNIVERSAL no Rio de Janeiro. O salário dobrou, mas como veio de um patamar baixo continuou não sendo dos maiores.  
     A OVELHA CHEIA de LÃ nos CULTOS tinha também garras afiadas para ajudar no CAMPO JURÍDICO.
     GRIGORE procurou de novo o PASTOR HONORILTON e propôs um considerável aumento de salário, caso contrário deixaria o cargo que estava ocupando. O PASTOR HONORILTON considerou a proposta como coisa de louco. E não aceitou a proposta.  
     Quando chegou em casa GRIGORE teve a receptividade esperada. Ao saber que o marido havia largado o trabalho, NADEGE ficou enfurecida. Mais uma briga pesada para o currículo do casal.  
     Diante dos gritos da esposa e do mundo caindo sobre ele, GRIGORE não argumentou. Apenas se retirou para o quarto para ORAR. Estava convicto de ter feito a coisa certa e – mais ainda – de que a providência iria ajudá-lo.  
     Não se enganou. Menos de uma semana depois um ex-colega de corretora o procurou com um recado incompleto: - “Alguém” havia procurado GRIGORE por lá. O tal alguém que deixara o número do telefone era o PASTOR RENATO SUHUET, que acabara de assumir o posto de quem demitira GRIGORE menos de uma semana antes.
     O PASTOR HONORILTON GONÇALVES foi cuidar da UNIVERSAL em São Paulo, e o PASTOR RENATO SUHUET assumiu o comando no Rio de Janeiro.
     Uma de suas primeiras medidas foi marcar uma reunião com o EX-FIEL e EX-ADVOGADO da IGREJA. Os dois se encontraram na RÁDIO COPACABANA e SUHUET pediu que GRIGORE voltasse ao trabalho. O Departamento Jurídico precisava dele. GRIGORE afirmou que voltaria se as mesmas exigências que haviam causado sua demissão fossem atendidas.    
     A vida do casal GRIGORE e NADEGE e dos filhos GREGÓRIO e EMILIANO mudou de uma hora para outra. Eram ricos de novo.
     GRIGORE vivia uma fase brilhante pessoal e profissionalmente, e queria mais que os grandes casos batessem à sua porta para ele poder mostrar todo o seu talento. Como um goleiro que quer mostrar serviço, GRIGORE torcia para que o time adversário chutasse em seu gol.  
     Só não podia imaginar que o chute seria cara-a-cara e tão potente.
     Era uma 6ª feira à tarde, hora em que a maioria dos trabalhadores se dedica à tarefa de planejar o happy hour e o fim-de-semana. GRIGORE tinha direito especial a tirar o pé da tarde naquela 6ª feira.
     Afinal, havia sido a semana mais trabalhosa desde que passara a prestar serviços para a UNIVERSAL. Cumprira jornada dupla, como funcionário e como FIEL.
     Estavam às vésperas do grande CULTO anual no MARACANÃ. No dia seguinte, mais de 100 mil pessoas – que naquele momento já deveriam estar se preparando para pegar os melhores lugares – se acotovelariam no estádio para ouvir as palavras dos Líderes da IGREJA. Especialmente do Líder Maior, o BISPO EDIR MACEDO, que com seu discurso inflamado e cativante fechava o dia em apoteose.  
     Naquela tarde quando tudo parecia tender ao descanso para a preparação para o CULTO do dia seguinte, o Departamento Jurídico da UNIVERSAL recebeu uma visita inesperada.
     O Presidente da Igreja Universal na época, PASTOR LAPROVITA VIEIRA foi um dos primeiros a estender os tentáculos da UNIVERSAL para outro território estratégico importante: - A POLÍTICA.
     No ano anterior, 1990, havia sido um dos TRÊS DEPUTADOS FEDERAIS Eleitos Ligados à IGREJA.
     Santinhos e banners com os números dos candidatos da UNIVERSAL passavam a fazer parte dos CULTOS e das PREGAÇÕES.
     Quatro anos depois a bancada da UNIVERSAL dobrou no Congresso. E em 1994 a UNIVERSAL já era uma força política, com 26 Deputados Estaduais em Dezoito Estados, 17 Deputados Federais e 1,4 milhão de votos, feito comparado a partidos de porte médio e tradicionais como o PDT e o PTB.
     Em 2002 a UNIVERSAL perderia uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas ganharia uma no Senado, com a Eleição do PASTOR MARCELO CRIVELLA e seus mais de 3,2 milhões de votos no Rio de Janeiro.  
     Nessa Legislatura, a chamada Bancada Evangélica – nome dado a Parlamentares Ligados a Treze Diferentes Igrejas – tinha 60 Parlamentares Eleitos por 5,1 milhões de votos, e mais quatro Senadores.
     Em 2006, a Bancada Evangélica se agrupou na mesma Legenda, o Partido Republicano Brasileiro – PRB.  
     Naquela 6ª feira o PASTOR e DEPUTADO LAPROVITA VIEIRA entrou agitado em sua sala e alguns minutos depois mandou chamar GRIGORE. Perguntou se ele conhecia um advogado paulista chamado CELSO FACHADA.
     GRIGORE respondeu que não, e ficou curioso não somente com a pergunta, mas com a tensão no rosto do Presidente da IGREJA. Aí veio a bomba. O BISPO EDIR MACEDO estava com ordem de prisão e não poderia aparecer no MARACANÃ no dia seguinte.  
     GRIGORE não perguntou por que, nem como, nem entrou em desespero. Simplesmente foi ORAR no banheiro. Depois de uns minutos voltou e fez uma pergunta que considerava crucial: - Se o tal CELSO FACHADA, que estava cuidando do caso, era CRISTÃO. Diante da negativa, se dispôs a entrar no caso.
     Ou melhor, se impôs, tal a intensidade e segurança, com que afirmou a LAPROVITA que iria a São Paulo resolver o problema.
     Para GRIGORE, não se tratava apenas de uma questão LEGAL, mas de uma questão ESPIRITUAL. O povo seria privado de ouvir a palavra tão aguardada do seu GUIA, e para evitar isso não bastava um ADVOGADO, era preciso ser um HOMEM de FÉ. E GRIGORE era as duas coisas.  
     O Presidente da UNIVERSAL ficou surpreso e na dúvida diante daquele entusiasmo repentino. Uma coisa era resolver problemas cíveis no dia-a-dia - coisa que sabia que GRIGORE fazia muito bem – outra era entrar em um buraco criminal, que envolvia cadeia, depoimentos, imprensa e denúncias que GRIGORE ainda nem conhecia.
     GRIGORE insistiu que voaria naquele instante para São Paulo. LAPROVITA quis saber o porquê do empenho. “DEUS falou ao meu CORAÇÃO”, respondeu o HOMEM de FÉ. Foi o suficiente.
     Geralmente uma decisão na UNIVERSAL acontecia somente após consulta de pelo menos uma meia dúzia de Líderes. Dessa vez, LAPROVITA VIEIRA bancou sozinho. Que GRIGORE entrasse no caso então.  
     GRIGORE nem teve tempo de passar em casa. Deu dois telefonemas – um para NADEGE avisando o que se passava e outro para o advogado CELSO FACHADA para que o esperasse.
         Saiu da RÁDIO COPACABANA às 17 horas e uma hora depois estava embarcando no aeroporto SANTOS DUMONT. No saguão do aeroporto pôde ter uma idéia do drama que se metera. A imprensa estava esperando, não só ciente de que ele já estava no caso, como, com informações que GRIGORE ainda NEM SABIA.
     CELSO FACHADA o esperava em sua casa, uma MANSÃO no MORUMBI. As denúncias contra o BISPO MACEDO tinham partido de seu ex-aliado e braço direito, BISPO CARLOS MAGNO. Quando CARLOS MAGNO se desligou da IGREJA, em uma separação nada amistosa, saiu atirando. Um dissidente insatisfeito.  
     (...) As denúncias que fossem investigadas depois, já que na verdade a Ordem de Prisão devia-se ao fato de EDIR MACEDO não ter atendido o chamado de um JUIZ para depor na POLÍCIA FEDERAL.
     O colega CELSO FACHADA tranqüilizou GRIGORE dizendo que a estratégia estava traçada. O plano era levar o BISPO MACEDO ao MARACANÃ no dia seguinte para cumprir com sua palavra, e de lá sair ALGEMADO.  
     (...) Para GRIGORE, no caso, levar o BISPO MACEDO para a CADEIA, não era admissível. Sendo assim, restava apresentar outra alternativa. GRIGORE propôs uma mais simples, porém mais difícil: - Revogar o Pedido de Prisão antes do CULTO.
     A dificuldade estava aí. Era 6ª feira à noite. Os tribunais estavam fechados até 2ª feira. Para GRIGORE, pouco importava as barreiras. Eles iriam à casa do Presidente do Tribunal de Justiça para expor o caso. Não era o procedimento protocolar, mas era o possível.
     Na residência do Magistrado um filho informou que o pai tinha saído. O jeito foi deixar recado e esperar. À uma hora da madrugada receberam o telefonema de retorno, e uma voz quis dissuadi-los da idéia. GRIGORE e CELSO FACHADA não quiseram nem saber.
     Voltaram à casa e lá foram informados que o Juiz não iria atendê-los. Insistiram. Deu resultado. O Presidente do Tribunal de Justiça apareceu aos berros, ameaçando prender os que perturbavam sua tranquilidade. O Juiz não emitiu Revogação de Prisão alguma.  
     (...) GRIGORE insistiu que só sairia de lá com a Revogação da Prisão. Mesmo no sábado, pensou GRIGORE, poderiam encontrar sabe-se lá onde um Juiz de Plantão. Saíram procurando onde quer que pudesse haver um. A busca deu resultado.
     Um Juiz do fórum do centro de São Paulo ouviu o caso com atenção. E, enfim, emitiu seu parecer: - Uma Revogação da Ordem de Prisão por 24 horas.  
    




“HOMEM de DEUS no PORTA-MALAS”.




     (...) No entanto, para surpresa de GRIGORE e dos 150 mil FIÉIS, o BISPO EDIR MACEDO não falou naquele dia.
     (...) Indeciso até a última hora, o BISPO MACEDO chegou a entrar no Estádio escondido no Porta-Malas de um carro. Lá dentro permaneceu escondido em alguma sala do centenário Estádio Mário Filho (MARACANÃ).  
     (...) Mais tarde sairia do mesmo jeito que entrou. Se o trajeto encolhido no Porta-Malas se restringisse à entrada e saída do MARACANÃ seria certamente desconfortável e um tanto humilhante.
     O problema é que o pânico não abandonou tão cedo o Líder Máximo da UNIVERSAL, e no dia seguinte ele teria que estar em São Paulo, cuidando dos seus negócios e, principalmente, da SUA DEFESA.  
      Quando GRIGORE encontrou seu cliente no dia seguinte em um quarto da residência do PASTOR HONORILTON GONÇALVES em São Paulo, tomou um choque. Não era um cliente qualquer, mas o HOMEM que mais ADMIRAVA entre todos os HOMENS.
     O próprio representante de DEUS, que GRIGORE imaginava ser capaz de passar por qualquer PROVAÇÃO, estava deitado numa cama, em um quarto escuro, enrolado em uma coberta e TREMENDO.      
     O próprio EDIR MACEDO confirmou que havia chegado a São Paulo após uma viagem de pelo menos 429 quilômetros através da Rodovia Presidente Dutra em um lugar que diferia muito da primeira classe na qual estava acostumado: - O PORTA-MALAS.  
     A primeira imagem que EDIR MACEDO usou para expressar a sua situação foi a de um homem CAÇADO. E de fato estava ali um homem ACUADO, com dificuldade de clarear as idéias e articular um raciocínio.    
     A essa altura, GRIGORE já era considerado a salva-guarda da Cúpula da UNIVERSAL. Primeiro porque dera repetidas provas de que cumpria o que falava.
     Depois porque as denúncias do EX-BISPO CARLOS MAGNO não atingiam apenas o ex-sócio EDIR MACEDO, mas também Outros Membros do Topo da Hierarquia da UNIVERSAL: - HONORILTON GONÇALVES, um PASTOR argentino chamado RICARDO CIS, o PASTOR RANDAU – não o que no futuro faria a vigília de morte para GRIGORE, mas o pai dele – e suas respectivas esposas.  
     O tiro não fora de revólver, mas de metralhadora, e podia machucar muita gente.  
     (...) Foi durante aquele interrogatório tenso que enfim GRIGORE tomou conhecimento da exata dimensão do pecado que batia à porta da IGREJA UNIVERSAL do REINO de DEUS.
     O Delegado e o Promotor falavam de ORGIAS promovidas em Hotéis, Fazendas, e na Própria Mansão do BISPO EDIR MACEDO, de JÓIAS DERRETIDAS que viravam BARRAS e eram enviadas para o EXTERIOR e DINHEIRO vindo do TRÁFICO de DROGAS.
     Segundo a denúncia do ex-homem forte da UNIVERSAL (o BISPO CARLOS MAGNO), Quatro Líderes estiveram na COLÔMBIA com Suas Esposas.
     Na volta eles vieram com UM MILHÃO de DÓLARES do NARCOTRÁFICO escondidos nas Roupas Íntimas que seriam usados para comprar a RECORD.
     O advogado (GRIGORE) que esperava encontrar uma acusação formal de Charlatanismo – um epíteto que costumava acompanhar a história do BISPO MACEDO – via o homem em quem tinha irrestrita confiança sendo questionado por CRIMES infinitamente mais GRAVES.  
     Eram tantos os detalhes, os jogos psicológicos, as informações novas e o hábil trato das palavras pelo Promotor e pelo Delegado da Polícia Federal que GRIGORE teve que fazer um enorme esforço sobre si mesmo para ele não estragar a estratégia. O nervosismo que ele temia no BISPO MACEDO, o atacava.
     Nas primeiras horas do interrogatório – das nove da manhã às 13 horas da tarde – GRIGORE sentiu pela primeira vez a sua FÉ colocada em cheque. Na pausa para o almoço a inquietação tirou-lhe a fome.  
     GRIGORE estava agora mais centrado em seus próprios dramas interiores do que no caso em si. Esforçava-se para se convencer de que tudo aquilo só poderia ser uma grande mentira. ORGIAS? Como era possível, se a missão da RECORD era construir uma Emissora de DEUS, um contraponto aos apelos eróticos da diabólica REDE GLOBO? TRÁFICO e IGREJA? Definitivamente não combinava.
     (...) O depoimento seguiu até as oito horas da noite. Seguindo com frieza o script, GRIGORE conseguiu driblar as perguntas capciosas e anular o motivo da Ordem de Prisão: - O BISPO MACEDO havia comparecido e colaborado com as investigações. Ainda assim o Delegado e o Promotor não cederam, e ao fim dos trabalhos informaram que o BISPO EDIR MACEDO estava preso.
     Diante dos protestos de GRIGORE o argumento misturou burocracia com má vontade.
     (...) Havia uma Ordem de Prisão assinada por um Juiz e ela tinha que ser cumprida.
     (...) Para resolver o impasse, a solução era ir até o fórum onde se encontrava o Juiz, para buscar a Revogação. O advogado CELSO FACHADA ficou encarregado da tarefa, enquanto os outros aguardavam. Para Emitir a Revogação da Prisão, o Juiz exigiu uma prova de que o BISPO havia deposto.
     Com muita má vontade o Delegado redigiu uma Declaração confirmando o Depoimento. CELSO FACHADA voltou com o papel que significava a Liberdade para o Líder da UNIVERSAL.  
     O obstáculo maior, no entanto, ainda estava por vir. Fotógrafos, cinegrafistas, microfones a postos, links ao vivo para os telejornais noturnos aguardavam a saída do BISPO MACEDO. Uma imensa multidão tomava conta da rua, fazendo o papel de torcida. E nesse item a UNIVERSAL estava em larga desvantagem.      
     (...) Foi quando se ouviu um ruído forte, gritos e pessoas nervosas se empurraram. Uma bomba caseira tinha sido arremessada, e ninguém tinha dúvidas de quem era o alvo.
     (...) Em casa, NADEGE, assistia tudo ao vivo pelo JORNAL NACIONAL. A imagem do marido protegendo o BISPO MACEDO seria vista também nos jornais impressos do dia seguinte.  
     (...) Com o carro em movimento, distante dos olhos de Delegado, Promotor, Imprensa e Multidão, o BISPO EDIR MACEDO começou a chorar. O que mais o atingia era o medo de que lhe tirassem a REDE RECORD, como um brinquedo valioso que alguém podia roubar.
     Foi no meio dessa catarse que o BISPO MACEDO jurou gratidão eterna ao homem que o salvara. Naquele momento, estava sendo promovido a guardião, braço direito e um dos homens fortes da IGREJA UNIVERSAL do REINO de DEUS. GRIGORE agradeceu, mas não aceitou na hora.    
     Depois de ter resolvido a PRIMEIRA PARTE do PROBLEMA, GRIGORE rumou para o Rio de Janeiro para ficar com a família, mas mal GRIGORE pisou em casa e recebeu um telefonema da direção, para voltar para São Paulo.
    Dessa vez, GRIGORE foi com NADEGE, deixando os filhos – nessa época com 12 e 9 anos – no Rio de Janeiro. No aeroporto de CONGONHAS um dos melhores carros da UNIVERSAL os aguardava para ir direto para a sede da RECORD. Que na época ficava bem perto do aeroporto.
     (...) Mesmo ocupado – pois naquele momento HONORILTON GONÇALVES estava dirigindo o programa ao vivo 25ª Hora, de debates e entrevistas a respeito da FÉ – cuidou para que o casal se sentisse o mais à vontade possível.
     Quando se viu liberado de suas atribuições, o PASTOR HONORILTON GONÇALVES foi direto à proposta a GRIGORE: - Salário de diretor da RECORD – três milhões e meio de cruzeiros (hoje equivalente a cerca de R$ 40 mil) -, carro do ano e um apartamento luxuoso em São Paulo para que ele resolvesse O CASO CARLOS MAGNO.  
    




“O ABALO da FÉ”.




     (...) O projeto de vida agora era não somente para AQUELE CASO, mas defender sempre a IGREJA UNIVERSAL.
     No dia-a-dia, ia cuidando da Investigação, ao mesmo tempo em que cumpria a função de acalmar os ânimos da Cúpula da UNIVERSAL. EDIR MACEDO, HONORILTON GONÇALVES, RICARDO CIS e RANDAU eram acometidos de crises de pessimismo e desesperança diariamente.
     O BISPO MACEDO um dia o convocou desesperado para tratar de um assunto urgente, uma bomba que poderia atingi-lo em cheio. Chegando lá, GRIGORE soube que circulava o rumor de que CARLOS MAGNO estava preparando um livro em que contaria toda a história.
     GRIGORE simplesmente respondeu: “Deixe que publique”.  O livro nunca saiu.  
     (...) Foi durante esse processo que GRIGORE percebeu claramente uma característica comum a todos os Líderes da Igreja Universal do Reino de Deus. Um traço marcante e de profunda ambigüidade. Enquanto no PÚLPITO eles eram homens CONFIANTES, cheios de ENERGIA e FÉ, falando com voz POTENTE e postura ALTIVA, nos BASTIDORES eram homens FRACOS. A incapacidade de tomar decisões era patente, mesmo a mais simples.      
      (...) A honrosa exceção, diz GRIGORE, era o PASTOR MARCELO CRIVELLA, que mais tarde entraria para a política. Engenheiro de formação e filho de uma família abastada, CRIVELLA passou por uma história semelhante à de GRIGORE na Igreja UNIVERSAL. Como FIEL, perdeu tudo o que tinha em DOAÇÕES.  
     (...) Durante as investigações, o casal CRIVELLA – MARCELO e sua esposa SILVIA – foram os únicos a manter serenidade e equilíbrio.
     (...) Ao final do depoimento, GRIGORE e o casal CRIVELLA tiveram uma conversa. GRIGORE fez um desabafo de que todo aquele processo envergonhava o nome de DEUS. Os escândalos não paravam de aparecer.
     (...) Em meio ao choro emocionado, GRIGORE acabou criando coragem para a pergunta decisiva. Não queria mais passar o dia na encruzilhada, na dúvida sobre qual caminho era o da VERDADE. GRIGORE perguntou se era VERDADE, em nome de DEUS e da consciência, O QUE ESTAVA nos AUTOS. O PASTOR RICARDO CIS, em uma explosão de sinceridade, CONFIRMOU TUDO.
     Após um silêncio, o confessor, mais ponderado, rogou para que a conversa não saísse daquela sala. Eram coisas que não podiam ser ditas, assegurou o PASTOR. GRIGORE assentiu. Em seguida, foram para o depoimento e RICARDO CIS, saiu da Polícia Federal em Liberdade. Não sem antes, como outros, jurarem gratidão ao advogado que o salvara.
     (...) O plano era muito claro. GRIGORE iria procurar o JUIZ responsável pelo caso e perguntar quanto ele queria pela inocência dos Líderes da UNIVERSAL. E o advogado teria uma margem de negociação livre: - O valor que o JUIZ pedisse seria pago. Se além de dinheiro houvesse algum capricho ou garantia, que fosse atendido também. Enfim, tudo o que o JUIZ quisesse.  
     O feeling de EDIR MACEDO e HONORILTON GONÇALVES parecia aguçado de novo. O JUIZ responsável pelo caso CARLOS MAGNO tinha um aspecto mais de roqueiro das antigas do que de Magistrado.
     Era mais fácil ver aquele homem de longos cabelos brancos no palco vestindo roupa preta e cantando sucessos de bandas dos anos 70 do que atrás de uma mesa coordenando um julgamento.  
     Não é possível saber se os Líderes da UNIVERSAL consideraram que todo mundo tem seu preço ou tinham alguma informação – ou mesmo impressão – de que aquele JUIZ seria especialmente sensível a uma proposta de corrupção.
     JOÃO CARLOS DA ROCHA MATOS protagonizaria no futuro um escândalo batizado de OPERAÇÃO ANACONDA. Principal envolvido em um negócio em que o produto era a Venda de Sentenças Judiciais, o JUIZ FEDERAL ROCHA MATOS acabaria preso em novembro de 2003.  
     O que MACEDO e HONORILTON não contavam é que, se ROCHA MATOS seria corruptível, GRIGORE não era. O advogado respondeu que não iria cumprir aquela tarefa. E não parou por aí. GRIGORE começou a fazer um discurso contra aquele tipo de atitude.
     O Bispo EDIR MACEDO e o Pastor HONORILTON GONÇALVES assistiram a cena calados e estarrecidos. Possivelmente não imaginavam tomar aquele SERMÃO. E nem se deparar com alguém que exigisse coerência entre a PALAVRA PREGADA e a VIDA VIVIDA.
     Tanto é que ao final do discurso, MACEDO olhou para HONORILTON com um balançar de cabeça e um SORRISO CÍNICO. Algo que poderia ser traduzido como: - Esse é FANÁTICO, não é dos nossos. Depois, levantou de sua mesa e saiu.  
     Acabava ali a jornada de GRIGORE como homem de confiança da IGREJA UNIVERSAL do REINO de DEUS. E começava um caminho de forte inclinação descendente: - A jornada de pessoa não grata.   
    
    

     Fontes: (1) – LIVRO – A VERDADEIRA HISTÓRIA DA IGREJA UNIVERSAL - Ficha Catalográfica Elaborada Pela Biblioteca Central – Universidade Federal de Sergipe – G857v – GRIGORE AVRAM VALERIU – A Verdadeira História da Igreja Universal/Grigore Avram Valeriu – Aracaju: - Sercore, 2008 – 264 páginas - 1. Religião – Conflitos. 2. História – Igreja Universal. I. Título. – CDU 289.3. SERCORE Artes Gráficas Ltda. Telefax: (79) 2106-9800.  
    
     “ANO da GRAÇA” (páginas 85, 86, 87, 88, 89 e 90). “DO DESERTO ao HARÉM” (páginas 91, 92 e 94). “BRIGAS e CALMANTES” (páginas 95, 96, 97, 98, 99 e 100). “OVELHAS CHEIAS de LÔ (páginas 101, 102, 103 e 104). “O DEDO do DEMÔNIO” (páginas 105, 106, 107 e 108). “MIOPIA COLETIVA” (páginas 109, 110, 111, 112, 114 e 115). “O PODER da FÉ” (páginas 120, 123, 124 e 125). “UM CULTO no MEIO do CAMINHO” (páginas 127, 128 e 129). CAMINHO de JÓ (páginas 134 e 135). “ADVOGADO do DIABO” (páginas 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 145, 146, 147, 148, 149, 150 e 151). “HOMEM de DEUS no PORTA-MALAS” (páginas 153, 154, 155, 158, 159, 160, 161, 162 e 163). “O ABALO da FÉ” (páginas 166, 167, 168, 170, 171, 172 e 173).


    
     A luta contra a debilitante POLIOMIELITE (paralisia infantil) continua, e a luta a favor da inofensiva AUTO-HEMOTERAPIA, também continua.
      Se DEUS nos permitir voltaremos outro dia ou a qualquer momento. Boa leitura, boa saúde, pensamentos positivos e BOM DIA.
     ARACAJU, capital do Estado de SERGIPE (Ex-PAÍS do FORRÓ e futuro “PAÍS da BOMBA ATÔMICA”), localizado no BRASIL, Ex-PAÍS dos fumantes de CIGARROS e futuro “PAÍS dos MACONHEIROS”. Quinta-feira, 04 de janeiro de 2018.




Jorge Martins Cardoso – Médico – CREMESE – 573.



    
     Fontes: (1) – LIVRO citado ACIMA.  (2) - OUTRAS FONTES.

jorge martins
Enviado por jorge martins em 04/01/2018
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